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 Direitos Reservados © Rafaela Teixeira 2017

Entrevista


Histórias inspiradoras de pessoas que em algum momento escolheram São Paulo como sua cidade. Brasileiros e estrangeiros que se jogaram nesse mundão e que nos mostram que vivenciar novas experiências é sempre algo incrível!

Janaína Suaudeau

Janaína Suaudeau | Foto: Dam' Photography

Quando criança, sua mãe a inscreveu por simples acaso numa oficina de teatro, poucos anos depois, Janaína Suaudeau descobriu que atuar era o que ela queria fazer para sempre. Hoje, ela é atriz profissional, professora, produtora e diretora de teatro, e a sua história nos mostra o quão difícil e inspirador é viver para e pela arte.


De onde eu vim...

Minhas raízes estão fincadas em dois países: o Brasil e a França. Meu pai é francês e minha mãe brasileira, do Piauí. Eu nasci no Rio de Janeiro, com 7 anos fui morar em São Paulo, e por lá fiquei muito tempo. Sou então meio francesa, meio piauiense, meio carioca e meio paulistana, ou seja, uma típica brasileira! Mas, o que realmente moldou minha vida e me fez ser a pessoa que eu sou hoje, foi o teatro.  Eu descobri o meu amor pelo palco aos 9 anos, quando minha mãe resolveu inscrever eu e meu irmão para participarmos de uma oficina de teatro. Aquilo mexeu comigo de uma maneira tão forte, que pouco tempo depois eu já tinha uma das certezas mais importantes da minha vida: atuar era algo que eu precisava fazer para sempre. Estudei teatro durante alguns anos na Casa do Teatro, uma escola infanto-juvenil, até que em 1999, eu tinha então 15 anos, comecei o curso técnico da escola Celia Helena. Foram noites em claro para dar conta do colégio e do teatro. Mas eu amava tanto atuar que todo o esforço valia a pena. O primeiro papel profissional da minha carreira foi inesquecível, minha formatura do Célia Helena: um menino cego e estrábico, num espetáculo que era uma adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira do José Saramago, com direção de Marco Antônio Rodrigues, e que ficou em cartaz no Teatro Maria Della Costa. Eu tive que fazer muitos exercícios oculares, antes, durante e depois da peça pra não ficar vesga, tonta, com dores, uma doidera.

Em 2002, depois de formada aqui no Brasil, fui continuar meus estudos na França, e por lá eu fiquei por 10 anos vivendo do teatro e pelo teatro. Estudei no Cours Florent de Paris, uma escola técnica que me preparou para participar dos concursos para entrar no Conservatoire National Supérieur d’Art Dramatique de Paris. Em 2004 passei no concurso e lá eu respirava teatro de segunda à domingo, 24h por dia. Eu descobri que até então eu estava vivendo uma vida mansa e não sabia! Depois de formada fiz parte por alguns anos do Jeune Théâtre National, que me permitiu vivenciar a alegria que é estar em turnê por várias cidades e se apresentar para diferentes públicos. Durante esse meu período em solo francês atuei em cinco peças profissionais apresentadas em diversas cidades do país, e ainda deu tempo de participar da filmagem de um longa-metragem no Canadá. Uma super experiência, mas que ajudou a reforçar o que eu já sabia desde os meus 9 anos: o que eu gosto mesmo é do palco.


Quem sou eu hoje...

Olhando pra trás, tenho a certeza de que sim, valeu muito a pena seguir o meu sonho de infância e me dedicar de corpo e alma ao teatro. Foi (e ainda é) um longo e árduo caminho, mas não poderia ser diferente.  Hoje, além de atriz, eu também sou produtora e diretora teatral. Junto com Nicole Cordery, uma amiga e atriz que conheci na França, criamos o projeto da peça Strindbergman, que uniu obras de Strindberg e Bergman. Ela foi dirigida por Marie Dupleix da Cia Les Mistons, e Nicole e eu atuamos na peça. Nos apresentamos na França e em 2009 conseguimos trazer o projeto para o Brasil, com o apoio de um crowdfunding. Fizemos duas temporadas em São Paulo, uma delas a convite do Sesc; e uma no Rio de Janeiro. Em Sampa tivemos uma ótima recepção, boas críticas, foi muito bom ver o nosso trabalho sendo reconhecido daquela maneira. Logo depois da última temporada, em 2012, iniciei a produção de Não se Brinca com o Amor, peça de Alfred de Musset, com direção de Anne Kessler (da Comédie-Française), e, nesse mesmo ano, comecei a pensar o que viria a ser o meu primeiro projeto como diretora: Término do Amor do dramaturgo francês Pascal Rambert. A peça estreou em 2016 e teve duas temporadas em São Paulo, foi algo muito intenso e incrível. E entre todos esses projetos tive a possibilidade de atuar em Um Poema Cênico para Ferreira Gular, um espetáculo mais performático, algo bem diferente de tudo que eu já tinha feito antes. O projeto foi criado pela atriz e diretora Ana Nero, e contou também com a participação das atrizes Joana Dória e Samya Enes. Apresentamos a peça pessoalmente ao Ferreira Gular – foi emocionante! -, e participamos de um evento especial dedicado a ele em 2015 no Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro.

Eu tenho agora me dedicado também a uma nova atividade: dar aulas de teatro, algo que venho fazendo desde 2016. Organizo alguns ateliês de teatro na escola francesa Lycée Pasteur, e também estou neste momento trabalhando como assistente de direção da Ligia Cortez, numa peça de formatura da Faculdade de Teatro Célia Helena.


Para onde eu vou...

Estou atualmente pré-produzindo uma nova peça francesa contemporânea, que terá direção do Nelson Baskerville, e pretendo continuar trabalhando com direção, já tenho algumas ideias, em breve espero poder tornar esses projetos realidade.

Viver do teatro não é fácil, estamos sempre criando, descobrindo, nos reinventado, é uma luta diária para conseguir editais, patrocínios e apoios, temos que realmente ser apaixonados por esta arte para encarar essa rotina, principalmente aqui no Brasil.


Em Sampa eu...

Tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade! Ela me alimenta culturalmente, sempre tem muitas coisas acontecendo, peças, shows, exposições, festivais de cinema, é até difícil de escolher. Mas ao mesmo tempo percebo que falta infraestrutura para artistas e técnicos, e um maior acesso para o público, e isso me entristece. A riqueza cultural de Sampa é mal aproveitada, essa cidade borbulha cultura mas falta apoio do poder público para que projetos culturais se desenvolvam ou consigam se manter.

Um lugar que eu gosto muito de frequentar é o Cemitério de Automóveis, um teatro e bar que é a cara de São Paulo. Lá acontecem peças de teatro, projeções de filmes, exposições, dá pra ir só para ouvir um bom som, um ambiente que remete muito à essa efervescência cultural meio louca da cidade.

Maria Ignez Mena Barreto

Maria Ignez Mena Barreto

A Maria Ignez, ou Nesa, como é carinhosamente chamada pelos amigos, saiu de uma fazenda no interior de Santa Maria para o mundo! Desde pequena tinha um grande fascínio pela cultura francesa, e acabou morando na França por 27 anos. De volta ao Brasil com doutorado e pós-doutorado em literatura francesa, ela agora dá aulas sobre arte em francês e em português, unindo suas grandes paixões: ensinar, falar francês e falar sobre arte.


De onde eu vim...

Eu já morei em muitos lugares, e cada um desses lugares me transformou um pouco. Eu nasci em Porto Alegre, mas ainda bebê fui com a família morar em uma fazenda no interior de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Eu não seria a pessoa que sou hoje sem a liberdade que tive durante toda a minha infância. Meus pais me criaram em plena natureza, subindo em árvores, brincando com terra, e sempre valorizaram o contato com diferentes culturas. Até hoje esses meus primeiros anos de vida fazem parte da minha essência como pessoa e foram fundamentais para que eu me sentisse confortável em explorar o mundo. Com 17 anos fui selecionada para realizar um intercambio de um ano na Holanda... sem falar holandês! Foi incrível! E eu pude fazer muitas aulas em francês, idioma pelo qual eu já era apaixonada: durante toda minha adolescência em Porto Alegre eu passei parte do meu tempo livre estudando na Aliança Francesa.

Em 1983 eu passei na faculdade de Letras da USP e me lancei em mais uma mudança: morar em São Paulo. Enquanto estudava, dei aulas particulares de francês e também na Aliança Francesa, estava sempre em contato com a literatura e a cultura francesa, e por isso morar na França era algo necessário para mim. Em 1987 consegui uma bolsa para fazer doutorado em Paris, e por lá eu fiquei durante 27 anos! Me casei, virei mãe, me separei, dei aulas de francês e de análise de imagens, e me especializei na análise codicológica do papel, que representa o estudo do papel para descobrir características sobre como e quando aquele texto foi escrito. Durante este período tive a sorte de frequentar muito o Institut de France para realizar pesquisas, e parte das minhas lembranças mais lindas da França remetem a este local maravilhoso.


Quem sou eu hoje...

Morar na França foi uma das experiências mais belas da minha vida. Eu costumo dizer que a França me escolheu desde pequena, então passar todos esses anos lá foi essencial para me transformar na pessoa que eu sou hoje. Mas, apesar de amar este país e sua cultura, eu sentia muita falta das relações humanas do Brasil, dos amigos, da família, da simpatia do brasileiro e dessa leveza de viver que só existe aqui. Em 2014 eu decidi voltar para São Paulo, e o que eu mais queria, e ainda quero, é transmitir todo este conhecimento que eu acumulei ao longo dos meus anos em solo francês. Criei então o Arte em Francês, um curso que une minhas grandes paixões: ensinar, falar francês e falar sobre arte! Com diferentes módulos e níveis, as aulas são realizadas em francês e abrangem sempre temas relacionados à história da arte, que são estudados principalmente a partir da análise de imagens. A história da humanidade está repleta de imagens, elas dialogam com o tempo, elas marcam o tempo, elas atravessam o tempo. Este é um tema muito rico e tenho tido um ótimo retorno dos alunos. Dar essas aulas me permite ter novamente contato com esse calor humano brasileiro que tanto me fez falta.


Para onde eu vou...

Muitas pessoas me pediam para também organizar cursos em português, então recentemente criei o Arte em Português, com aulas neste idioma. Uma nova experiência para mim, já que dar aulas em francês sempre foi natural, já em português é uma grande novidade! E tenho tido também pedidos para organizar aulas e cursos personalizados, em diferentes locais e para diferentes tipos de públicos. Aos poucos estou me redescobrindo no Brasil e me reinventando. Não sei para onde eu vou, mas sei que agora eu quero continuar na minha terra, viver intensamente as relações humanas, cultivar as amizades, estar com pessoas queridas. Para mim ensinar é algo extremamente gratificante, não me vejo fazendo outra coisa senão dar aulas. Eu acredito muito na idéia de que você só sabe realmente o que você ensina, da mesma maneira que você só possui o que você dá.


Em Sampa eu...

Quando eu decidi voltar para o Brasil eu não tive dúvidas: vou voltar pra São Paulo. Nessa cidade eu me sinto em casa. Vivi anos maravilhosos na USP, conheci pessoas incríveis, fiz grandes amigos. Enquanto a França me escolheu, eu escolhi São Paulo. Aqui existe uma harmonia na diversidade que eu nunca encontrei em outra cidade. Todos são atraídos de alguma forma por São Paulo, aqui as pessoas querem aprender com o diferente, não tem medo do diferente. Ao contrário do que se diz por aí, é fácil fazer amigos em São Paulo. Se você se entrega, Sampa sempre te retribui!


Vai lá conhecer o Arte em Francês e Arte em Português:

Cursos de história da arte realizados pela Maria Ignez Mena Barreto, em francês e em português |  www.arteemfrances.com


Contatos:

arteemfrances@gmail.com | (11) 967772702

Regina Naegeli

Regina com amigas chinesas em congresso de Ikebana

Regina Naegeli é uma carioca franco-brasileira que há dois anos mora em Shangai, mas que já mora há 10 anos na China. Seus pais a criaram para o mundo e ela levou esses ensinamentos a sério! Está escrevendo seu segundo livro e estuda o Ikebana, a arte oriental de arranjos florais.


De onde eu vim...

Eu vim do Rio de Janeiro. Fui criada em Ipanema, mas com um pé na Europa, já que meu pai era descendente de belgas e suíços. Desde muito cedo meus pais me incentivaram a viajar e conhecer o mundo e essa minha jornada andarilha começou na época da faculdade, quando fui morar alguns anos nos Estados Unidos. Me formei em Letras e Marketing, trabalhei em jornais e agências de publicidade, e depois de uma temporada em São Paulo parti com a família para morar três anos na França... que se transformaram em 18 anos fora do Brasil! Da França segui para a China e descobri a riqueza da cultura oriental. Seus ensinamentos transformaram para sempre o meu modo de ver e vivenciar o mundo.


Quem sou eu hoje...

Hoje eu sou três Reginas: a Regina brasileira, que adora caminhar pela manhã na praia de Ipanema; a Regina francesa, que é apaixonada por queijos; e a Regina chinesa, que come todo dia de hashi! Mas é claro que eu não posso ser diariamente essas três pessoas. Elas estão todas aqui, mas cada uma tem o seu momento. Morar fora significa absorver diferentes culturas, que nem sempre convivem bem entre si. Eu aprendi a me apegar ao que existe de melhor em cada uma delas para viver um presente multicultural! Minhas idas e vindas pelo mundo foram uma consequência do trabalho do meu marido, e neste sentido eu tive que aprender a conviver com a frustração de abandonar a minha carreira profissional. Não foi, e até hoje não é fácil, mas a vida é movida por escolhas. Eu dificilmente teria descoberto a riqueza da cultua oriental e publicado um livro sobre a minha experiência chinesa se eu tivesse seguido um outro caminho de vida. Hoje eu sou uma escritora, algo que eu nunca havia imaginado ser!


Para onde eu vou..

O que eu mais quero é em breve estar mais próxima da minha família. Já faz quase 20 anos que moro longe e com o passar dos anos, apesar de nos acostumarmos com a distância, a saudade aumenta.  As certezas são sempre poucas na vida, mas uma coisa eu sei: da China eu vou para onde minhas filhas estiverem! Seja pro Brasil ou pra qualquer outro canto do mundo!


Em Sampa eu...

Me sinto em casa. Minha alma é carioca, mas meu coração é um pouquinho paulistano. Sempre tive família e amigos na cidade, então ir para São Paulo me aproxima de pessoas queridas, de encontros cheios de alegria. Eu já tive uma história em Sampa e voltaria facilmente a morar nesta cidade. O que eu mais gosto aqui é que temos constantemente a impressão de que em São Paulo tudo é possível, essa é realmente a terra das oportunidades! Isso sem falar da gastronomia... que merece um capítulo à parte!


(Infelizmente o livro da Regina "Destino China – Um guia do estrangeiro na China: sentimentos, vivências e impressões", está atualmente esgotado ☹)

Patrice Haddad

Patrice Haddad

Patrice é um francês, comediante e professor de teatro, que desde 2015 mora em São Paulo, onde criou a trupe de teatro “Les François” e o curso de teatro “Le cours François”.

Ele nos fez descobrir o “ban bourguignon”, um canto popular da região da Borgonha, na França, que é pura diversão! Dá um google!


De onde eu vim...

Em Dijon, na Borgonha, estão minhas raízes. De lá guardo meu gosto pela cuisine française, pela mostarda picante e pelos bons vinhos. Já o teatro e a comédia são minhas grandes paixões. Foi no teatro que descobri minha vocação para ensinar e divertir as pessoas. A Marinha Nacional Francesa foi minha casa durante 10 anos, e para lá levei o teatro. Com ele, pude apoiar meus colegas nos momentos difíceis, meu lema era: “Divertir para melhor servir".


Quem sou eu hoje...

Tive maior contato com o Brasil em 2004 quando eu conheci a capoeira. E desde então, eu nunca mais a abandonei. Sua brincadeira e sua arte de viver são hoje parte fundamental da minha essência como pessoa e artista. E por isso, ter a oportunidade de morar no Brasil foi muito significativo para mim. Em 2015 eu e minha esposa chegamos em São Paulo e descobrimos como essa cidade é inspiradora de múltiplas maneiras: ela transpira arte, criatividade e empreendedorismo por todos os lados.  Aqui, eu aprendi a ser mais corajoso e dinâmico nas escolhas da vida. Criei a trupe de teatro “Les François”, que conta com incríveis comediantes franceses, brasileiros e africanos, todos voluntários. E me lancei como professor de teatro: criei a escola “Le Cours François”, onde dou aula em francês de improvisação, teatro e Stand-Up Comedy. As belezas e tristezas do Brasil também me trouxeram muita inspiração para desenhar, e cada dia que passa são mais e mais caricaturas! Mas, sem dúvidas, hoje, o que mais me orgulho de ser, é pai de um pequeno franco-brasileiro.


Para onde eu vou...

Como marinheiro, minha missão era servir à França. Agora, como comediante, minha missão é apoiar a francofonia. O contato com os brasileiros me fez gostar ainda mais da cultura francesa. Acho que muitos franceses não tem a paixão que o brasileiro tem pela França! Me sinto honrado de poder mostrar um pouco da cultura do meu país através do teatro e do desenho, é o que eu pretendo continuar a fazer por muitos anos. E, se tudo der certo, em breve a trupe “Les François” irá apresentar seu primeiro espetáculo!


 Em Sampa eu...

Descobri a expressão “de repente”, e minha vida nunca mais foi a mesma! 

Me divirto passeando por suas praças: na Praça João Francisco Lisboa, na Vila Madalena, dou muitas gargalhadas no balanço depois de tomar algumas caipirinhas com os amigos; na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, me encanto com o Espaço Cultural Alberico Rodrigues; e na Praça Roosevelt, na Consolação, assisto a incríveis peças de teatro.


Vai lá conhecer o Cours François:

Escola de teatro Cours François

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E-mail: plarcheveque@hotmail.com

Telefone: (11) 98429 0928