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 Direitos Reservados © Natacha Veen

Entrevista


Histórias inspiradoras de pessoas que em algum momento escolheram São Paulo como sua cidade. Brasileiros e estrangeiros que se jogaram nesse mundão e que nos mostram que vivenciar novas experiências é sempre algo incrível!

Chantal Maguin

Chantal Maguin com seu livro | Foto: Chantal Maguin

Conversamos com Chantal Maguin, franco-libanesa que há quatro anos mora em São Paulo. Aqui no Brasil ela virou mãe e durante a sua primeira gravidez foi aos poucos descobrindo todos os perrengues que as amigas nunca contam! Além dos medos comuns a quase todas as grávidas, ela ainda teve que lidar com as diferenças culturais relacionadas à maternidade. Tudo isso foi sendo documentado num diário, que ela resolveu transformar num livro, lançado em junho de 2018, onde ela conta de maneira divertida o lado B da gravidez!


De onde eu vim...

Eu venho de um passado multicultural, e com certeza ele influenciou muito o meu presente ainda mais multicultural. Sou franco-libanesa, nasci em Beirute no Líbano, minha família toda é de lá, mas ainda criança fui com meus pais e meu irmão morar na França, na cidade de Strasbourg. Morei nessa cidade até entrar na faculdade, quando me mudei para Paris para estudar ciências políticas na universidade de SciencesPo. E foi lá que eu conheci o Hubert, meu marido.

Me especializei em estratégia financeira e durante cinco anos trabalhei em uma consultoria de gestão de negócios. Era uma vida louca, eu viajava demais, não era fácil... Mas ao mesmo tempo era extremamente desafiador, uma experiência profissional muito rica. Enfim, era bom, mas estava me consumindo também. Meu marido tinha um estilo de vida muito parecido e juntos decidimos que era hora de mudar. Viver em outro país era um plano nosso, e o Brasil sempre nos encantou. Mas nunca tínhamos pisado no Brasil e a nossa visão do país era aquela imagem bem romântica: cenas paradisíacas, aquela coisa de filme! Não falávamos uma palavra de português, mas decidimos que precisávamos morar aqui. Começamos então a pesquisar mais sobre o país e procurar trabalho. Demos sorte pois isso aconteceu em 2014, ano de Copa do Mundo no Brasil e poucos anos antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro, então o mundo inteiro olhava para o Brasil. Em pouco tempo meu marido arranjou um trabalho, eu pedi demissão, e fomos! E alguns meses depois de chegarmos em São Paulo eu já arrumei um emprego, antes mesmo de falar português.

O país não é exatamente como nos nossos sonhos, mas aquela nossa visão romântica não era assim tão errada! O Brasil é maravilhoso, cada região tem belezas únicas, e os brasileiros são extremamente acolhedores e simpáticos, fica difícil não se apaixonar. A cultura brasileira é riquíssima, eu adoro especialmente a música e a dança brasileira.


Quem sou eu hoje...

Chegamos aqui em 2014, e agora, quatro anos depois, eu sou mãe de duas brasileirinhas e publiquei um livro sobre gravidez. Se eu imaginava isso? Jamais! Assim que eu engravidei da Inès, dois anos depois de chegarmos ao Brasil, novos desafios foram surgindo e eu não posso dizer que foi fácil. A primeira gravidez é desafiadora para toda mulher, e estar grávida num país que você não domina totalmente a cultura, especificamente os costumes relacionados à gravidez, foi difícil. Todos os milhões de detalhes do plano de saúde para entender, por que escolher um ou outro hospital, eu posso escolher qual o tipo de parto que eu quero ter?? Gente, isso não existe na França! E eu ainda engravidei no auge da epidemia do Zica, ou seja, foi realmente um pouco apavorante!

Desde nossa chegada à São Paulo eu mandava e-mails mensais para família e amigos contando sobre nossa vida brasileira, sempre de uma maneira divertida e sem esconder o lado B da história. E essa descoberta diária dos perrengues e medos da gravidez me motivou a escrever cada vez mais. Depois que a Inès nasceu e eu me adaptei à rotina de mãe, comecei a ter tempo livre durante minha licença maternidade, e foi aí que veio a vontade de transformar aqueles e-mails em livro. Eu pensava: como ninguém me contou que seria assim?? Já que ninguém me disse, eu vou contar para as futuras mães o que eu gostaria que tivessem me contado! Meu marido amou a ideia, e eu mergulhei de cabeça nesse projeto. Demorei um ano para terminar de escrever e depois veio a busca por editoras. Foram seis meses de pesquisa, milhões de e-mails, respostas negativas, outras positivas. E aí, depois de finalmente encontrar uma editora, vieram mais seis meses de revisão de textos. Eu não aguentava mais reler e reescrever, exaustivo! Nesses meses eu também me responsabilizei pela capa do livro, escolhi uma artista brasileira que eu já conhecia, a Elen Peres e ela fez a capa perfeita. Finalmente, dois anos depois dessa ideia maluca surgir, em junho de 2018 lá estava meu terceiro bebê: meu livro! Porque no meio do caminho, nasceu a Bruna! E, mais uma vez, minha licença maternidade foi dedicada ao livro. Enquanto a editora ficou responsável pelo lançamento e comunicação do livro em vários países francófonos, eu assumi essa responsabilidade no Brasil e no Líbano. E que alegria e emoção foi ver o orgulho da família e dos amigos com meu livro nas mãos, eu tive um retorno maravilhoso de todos. Foi demais.

Quem sou eu hoje? Dentre tantas coisas, sou escritora e mãe! Experiências maravilhosas que o Brasil me deu.


Para onde eu vou...

Agora o que eu mais quero é curtir esse momento do lançamento do livro, sentir o orgulho de realizar esse projeto, e aproveitar ao máximo o final da minha segunda licença maternidade, que acaba em outubro desse ano (2018).

A Inès, hoje com dois anos, e a Bruna, com 5 meses, são a nossa relação eterna com o Brasil. Elas são brasileiras e queremos que elas realmente se sintam brasileiras. Mas não apenas, elas também são francesas e libanesas. Falamos português, francês e árabe com elas, mostramos para elas os costumes desses países, nós queremos que elas se sintam pertencentes e a vontade com essas três culturas. E é por isso que eu e o Hubert estamos pensando em pedir a nacionalidade brasileira. Nos identificamos muito com esse país e nos parece totalmente natural sermos brasileiros como nossas filhas.


Em Sampa eu...

Eu adoro essa cidade! São Paulo é uma cidade extremamente cosmopolita, culturalmente rica, tudo acontece aqui. Estamos diariamente descobrindo coisas novas, é uma cidade dinâmica, cheia de vida. Antes de termos as meninas, a gente curtia muito a vida noturna de São Paulo, mas agora ficou mais difícil. E não tem como não relacionar São Paulo à sua incrível gastronomia, restaurantes é o que não falta! Um restaurante que gostamos muito de ir é o Capim Santo de culinária brasileira, delicioso. Tem um belo jardim, perfeito para ir com crianças.

Mas claro que a cidade não é perfeita, viver bem em São Paulo depende muito do bairro onde você mora. Eu sinto falta de poder caminhar mais, fazer mais coisas a pé. No bairro onde eu moro sou muito dependente do carro. E as calçadas aqui são horrorosas! Caminhar com carrinho de bebê é terrível! Mas cidade perfeita não existe não é mesmo? Aqui somos muito felizes!


Entrevista realizada em agosto 2018, no Diario Café.


Onde encontrar o livro da Chantal?

« Les dessous de la grossesse : Vous auriez pu me le dire ! » Editions La Boîte à Pandore


(Tradução livre: “Os bastidores da gravidez:  vocês poderiam ter me contado!” – o livro foi publicado apenas em francês.)


Você pode encontra-lo em todos os pontos de venda da Livraria Francesa, inclusive na loja virtual.


Fique por dentro de todas as novidades do livro pela sua página do Facebook.

Chica Boyriven

Chica Boyriven, Vernissage "Terra a vista" | Foto: Francisco Santiago Fotografia

Essa é a história da Chica Boyriven, artista plástica que nasceu em São Paulo e que atualmente mora na França: suas origens estão marcadas pela vida entre continentes, entre dois países, entre duas culturas!

 

De onde eu vim...

Eu nasci em São Paulo, filha de pais franceses, que, como muitos europeus, vieram ainda jovens se aventurar nesse país tropical chamado Brasil! Passei minha infância nas praias de Ubatuba com minhas irmãs, em contato com a natureza, o mar e com a beleza desse litoral. Mesmo distante do país dos meus antepassados, a cultura e os costumes franceses estiveram bastante presentes no meu cotidiano, e eu resolvi então fazer o caminho inverso dos meus pais: com 19 anos fui me aventurar no velho continente. Fui pra Paris para viver a minha grande paixão: a arte. Estudei na Ecole Superieur des Beaux Arts e devagarinho comecei a dar os primeiros passos de minha carreira como artista plástica.

A saudade do Brasil era grande e muitas vezes pensei em voltar, mas aos poucos fui conseguindo bons trabalhos em galerias francesas e a vontade de voltar foi ficando pra depois. Essa saudade se transformou em fonte de inspiração e quanto mais eu desenvolvo a minha linguagem artística mais eu falo do Brasil: sua natureza, a presença africana, a pintura naif, suas cores, o grafismo indígena, toda essa efervescência da cultura brasileira é parte da minha essência como artista.

 

Quem sou eu hoje...

Após 30 anos apresentando minha arte e com uma carreira consolidada na França, expor meu trabalho, minha paixão, no Brasil foi um importante marco da minha trajetória artística. A exposição “Terra à Vista” que esteve em cartaz em 2017 na ABER em São Paulo, mostrou um pedacinho da minha história, misturando poesia e realismo, técnicas que vão da gravura em metal ao batik e desenho, e temas que permeiam a minha brasilidade.

 

Para onde eu vou...

A vontade de morar no Brasil ainda pulsa, mas, por enquanto, ela segue como essa terra distante, quase a vista, minha grande fonte de inspiração! Sempre que posso fujo do inverno europeu e venho me revigorar nas praias brasileiras, curtir a natureza, a família, beber caipirinhas e me deixar levar pela espontaneidade que só o brasileiro tem. O Brasil possui uma leveza, uma natureza doce que é única e apaixonante.

A Cidade Luz ainda é para onde eu sempre volto. Me sinto livre passeando de bicicleta pelas ruas de Paris, visitando seus museus e galerias, expondo minha arte. Essa cidade multicultural que me acolheu me encanta diariamente. Mas, mesmo encantada e feliz, as vezes eu sinto que falta algo... provavelmente aquela “baguncinha” brasileira!

 

Entrevista realizada em fevereiro 2018 durante Vernissage de gravuras da Chica em São Paulo.

Janaína Suaudeau

Janaína Suaudeau | Foto: Dam' Photography

Quando criança, sua mãe a inscreveu por simples acaso numa oficina de teatro, poucos anos depois, Janaína Suaudeau descobriu que atuar era o que ela queria fazer para sempre. Hoje, ela é atriz profissional, professora, produtora e diretora de teatro, e a sua história nos mostra o quão difícil e inspirador é viver para e pela arte.

 

De onde eu vim...

Minhas raízes estão fincadas em dois países: o Brasil e a França. Meu pai é francês e minha mãe brasileira, do Piauí. Eu nasci no Rio de Janeiro, com 7 anos fui morar em São Paulo, e por lá fiquei muito tempo. Sou então meio francesa, meio piauiense, meio carioca e meio paulistana, ou seja, uma típica brasileira! Mas, o que realmente moldou minha vida e me fez ser a pessoa que eu sou hoje, foi o teatro.  Eu descobri o meu amor pelo palco aos 9 anos, quando minha mãe resolveu inscrever eu e meu irmão para participarmos de uma oficina de teatro. Aquilo mexeu comigo de uma maneira tão forte, que pouco tempo depois eu já tinha uma das certezas mais importantes da minha vida: atuar era algo que eu precisava fazer para sempre. Estudei teatro durante alguns anos na Casa do Teatro, uma escola infanto-juvenil, até que em 1999, eu tinha então 15 anos, comecei o curso técnico da escola Celia Helena. Foram noites em claro para dar conta do colégio e do teatro. Mas eu amava tanto atuar que todo o esforço valia a pena. O primeiro papel profissional da minha carreira foi inesquecível, minha formatura do Célia Helena: um menino cego e estrábico, num espetáculo que era uma adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira do José Saramago, com direção de Marco Antônio Rodrigues, e que ficou em cartaz no Teatro Maria Della Costa. Eu tive que fazer muitos exercícios oculares, antes, durante e depois da peça pra não ficar vesga, tonta, com dores, uma doidera.

Em 2002, depois de formada aqui no Brasil, fui continuar meus estudos na França, e por lá eu fiquei por 10 anos vivendo do teatro e pelo teatro. Estudei no Cours Florent de Paris, uma escola técnica que me preparou para participar dos concursos para entrar no Conservatoire National Supérieur d’Art Dramatique de Paris. Em 2004 passei no concurso e lá eu respirava teatro de segunda à domingo, 24h por dia. Eu descobri que até então eu estava vivendo uma vida mansa e não sabia! Depois de formada fiz parte por alguns anos do Jeune Théâtre National, que me permitiu vivenciar a alegria que é estar em turnê por várias cidades e se apresentar para diferentes públicos. Durante esse meu período em solo francês atuei em cinco peças profissionais apresentadas em diversas cidades do país, e ainda deu tempo de participar da filmagem de um longa-metragem no Canadá. Uma super experiência, mas que ajudou a reforçar o que eu já sabia desde os meus 9 anos: o que eu gosto mesmo é do palco.

 

Quem sou eu hoje...

Olhando pra trás, tenho a certeza de que sim, valeu muito a pena seguir o meu sonho de infância e me dedicar de corpo e alma ao teatro. Foi (e ainda é) um longo e árduo caminho, mas não poderia ser diferente.  Hoje, além de atriz, eu também sou produtora e diretora teatral. Junto com Nicole Cordery, uma amiga e atriz que conheci na França, criamos o projeto da peça Strindbergman, que uniu obras de Strindberg e Bergman. Ela foi dirigida por Marie Dupleix da Cia Les Mistons, e Nicole e eu atuamos na peça. Nos apresentamos na França e em 2009 conseguimos trazer o projeto para o Brasil, com o apoio de um crowdfunding. Fizemos duas temporadas em São Paulo, uma delas a convite do Sesc; e uma no Rio de Janeiro. Em Sampa tivemos uma ótima recepção, boas críticas, foi muito bom ver o nosso trabalho sendo reconhecido daquela maneira. Logo depois da última temporada, em 2012, iniciei a produção de Não se Brinca com o Amor, peça de Alfred de Musset, com direção de Anne Kessler (da Comédie-Française), e, nesse mesmo ano, comecei a pensar o que viria a ser o meu primeiro projeto como diretora: Término do Amor do dramaturgo francês Pascal Rambert. A peça estreou em 2016 e teve duas temporadas em São Paulo, foi algo muito intenso e incrível. E entre todos esses projetos tive a possibilidade de atuar em Um Poema Cênico para Ferreira Gular, um espetáculo mais performático, algo bem diferente de tudo que eu já tinha feito antes. O projeto foi criado pela atriz e diretora Ana Nero, e contou também com a participação das atrizes Joana Dória e Samya Enes. Apresentamos a peça pessoalmente ao Ferreira Gular – foi emocionante! -, e participamos de um evento especial dedicado a ele em 2015 no Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro.

Eu tenho agora me dedicado também a uma nova atividade: dar aulas de teatro, algo que venho fazendo desde 2016. Organizo alguns ateliês de teatro na escola francesa Lycée Pasteur, e também estou neste momento trabalhando como assistente de direção da Ligia Cortez, numa peça de formatura da Faculdade de Teatro Célia Helena.

 

Para onde eu vou...

Estou atualmente pré-produzindo uma nova peça francesa contemporânea, que terá direção do Nelson Baskerville, e pretendo continuar trabalhando com direção, já tenho algumas ideias, em breve espero poder tornar esses projetos realidade.

Viver do teatro não é fácil, estamos sempre criando, descobrindo, nos reinventado, é uma luta diária para conseguir editais, patrocínios e apoios, temos que realmente ser apaixonados por esta arte para encarar essa rotina, principalmente aqui no Brasil.

 

Em Sampa eu...

Tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade! Ela me alimenta culturalmente, sempre tem muitas coisas acontecendo, peças, shows, exposições, festivais de cinema, é até difícil de escolher. Mas ao mesmo tempo percebo que falta infraestrutura para artistas e técnicos, e um maior acesso para o público, e isso me entristece. A riqueza cultural de Sampa é mal aproveitada, essa cidade borbulha cultura mas falta apoio do poder público para que projetos culturais se desenvolvam ou consigam se manter.

Um lugar que eu gosto muito de frequentar é o Cemitério de Automóveis, um teatro e bar que é a cara de São Paulo. Lá acontecem peças de teatro, projeções de filmes, exposições, dá pra ir só para ouvir um bom som, um ambiente que remete muito à essa efervescência cultural meio louca da cidade.

 

Entrevista realizada em novembro 2017 no escritório da manacá

Maria Ignez Mena Barreto

Maria Ignez Mena Barreto

A Maria Ignez, ou Nesa, como é carinhosamente chamada pelos amigos, saiu de uma fazenda no interior de Santa Maria para o mundo! Desde pequena tinha um grande fascínio pela cultura francesa, e acabou morando na França por 27 anos. De volta ao Brasil com doutorado e pós-doutorado em literatura francesa, ela agora dá aulas sobre arte em francês e em português, unindo suas grandes paixões: ensinar, falar francês e falar sobre arte.

 

De onde eu vim...

Eu já morei em muitos lugares, e cada um desses lugares me transformou um pouco. Eu nasci em Porto Alegre, mas ainda bebê fui com a família morar em uma fazenda no interior de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Eu não seria a pessoa que sou hoje sem a liberdade que tive durante toda a minha infância. Meus pais me criaram em plena natureza, subindo em árvores, brincando com terra, e sempre valorizaram o contato com diferentes culturas. Até hoje esses meus primeiros anos de vida fazem parte da minha essência como pessoa e foram fundamentais para que eu me sentisse confortável em explorar o mundo. Com 17 anos fui selecionada para realizar um intercambio de um ano na Holanda... sem falar holandês! Foi incrível! E eu pude fazer muitas aulas em francês, idioma pelo qual eu já era apaixonada: durante toda minha adolescência em Porto Alegre eu passei parte do meu tempo livre estudando na Aliança Francesa.

Em 1983 eu passei na faculdade de Letras da USP e me lancei em mais uma mudança: morar em São Paulo. Enquanto estudava, dei aulas particulares de francês e também na Aliança Francesa, estava sempre em contato com a literatura e a cultura francesa, e por isso morar na França era algo necessário para mim. Em 1987 consegui uma bolsa para fazer doutorado em Paris, e por lá eu fiquei durante 27 anos! Me casei, virei mãe, me separei, dei aulas de francês e de análise de imagens, e me especializei na análise codicológica do papel, que representa o estudo do papel para descobrir características sobre como e quando aquele texto foi escrito. Durante este período tive a sorte de frequentar muito o Institut de France para realizar pesquisas, e parte das minhas lembranças mais lindas da França remetem a este local maravilhoso.

 

Quem sou eu hoje...

Morar na França foi uma das experiências mais belas da minha vida. Eu costumo dizer que a França me escolheu desde pequena, então passar todos esses anos lá foi essencial para me transformar na pessoa que eu sou hoje. Mas, apesar de amar este país e sua cultura, eu sentia muita falta das relações humanas do Brasil, dos amigos, da família, da simpatia do brasileiro e dessa leveza de viver que só existe aqui. Em 2014 eu decidi voltar para São Paulo, e o que eu mais queria, e ainda quero, é transmitir todo este conhecimento que eu acumulei ao longo dos meus anos em solo francês. Criei então o Arte em Francês, um curso que une minhas grandes paixões: ensinar, falar francês e falar sobre arte! Com diferentes módulos e níveis, as aulas são realizadas em francês e abrangem sempre temas relacionados à história da arte, que são estudados principalmente a partir da análise de imagens. A história da humanidade está repleta de imagens, elas dialogam com o tempo, elas marcam o tempo, elas atravessam o tempo. Este é um tema muito rico e tenho tido um ótimo retorno dos alunos. Dar essas aulas me permite ter novamente contato com esse calor humano brasileiro que tanto me fez falta.

 

Para onde eu vou...

Muitas pessoas me pediam para também organizar cursos em português, então recentemente criei o Arte em Português, com aulas neste idioma. Uma nova experiência para mim, já que dar aulas em francês sempre foi natural, já em português é uma grande novidade! E tenho tido também pedidos para organizar aulas e cursos personalizados, em diferentes locais e para diferentes tipos de públicos. Aos poucos estou me redescobrindo no Brasil e me reinventando. Não sei para onde eu vou, mas sei que agora eu quero continuar na minha terra, viver intensamente as relações humanas, cultivar as amizades, estar com pessoas queridas. Para mim ensinar é algo extremamente gratificante, não me vejo fazendo outra coisa senão dar aulas. Eu acredito muito na idéia de que você só sabe realmente o que você ensina, da mesma maneira que você só possui o que você dá.

 

Em Sampa eu...

Quando eu decidi voltar para o Brasil eu não tive dúvidas: vou voltar pra São Paulo. Nessa cidade eu me sinto em casa. Vivi anos maravilhosos na USP, conheci pessoas incríveis, fiz grandes amigos. Enquanto a França me escolheu, eu escolhi São Paulo. Aqui existe uma harmonia na diversidade que eu nunca encontrei em outra cidade. Todos são atraídos de alguma forma por São Paulo, aqui as pessoas querem aprender com o diferente, não tem medo do diferente. Ao contrário do que se diz por aí, é fácil fazer amigos em São Paulo. Se você se entrega, Sampa sempre te retribui!

 

Entrevista realizada em setembro 2017 na padaria Fabrique

 

Vai lá conhecer o Arte em Francês e Arte em Português:

Cursos de história da arte realizados pela Maria Ignez Mena Barreto, em francês e em português |  www.arteemfrances.com

 

Contatos:

arteemfrances@gmail.com | (11) 967772702

Regina Naegeli

Regina com amigas chinesas em congresso de Ikebana

Regina Naegeli é uma carioca franco-brasileira que há dois anos mora em Shangai, mas que já mora há 10 anos na China. Seus pais a criaram para o mundo e ela levou esses ensinamentos a sério! Está escrevendo seu segundo livro e estuda o Ikebana, a arte oriental de arranjos florais.


De onde eu vim...

Eu vim do Rio de Janeiro. Fui criada em Ipanema, mas com um pé na Europa, já que meu pai era descendente de belgas e suíços. Desde muito cedo meus pais me incentivaram a viajar e conhecer o mundo e essa minha jornada andarilha começou na época da faculdade, quando fui morar alguns anos nos Estados Unidos. Me formei em Letras e Marketing, trabalhei em jornais e agências de publicidade, e depois de uma temporada em São Paulo parti com a família para morar três anos na França... que se transformaram em 18 anos fora do Brasil! Da França segui para a China e descobri a riqueza da cultura oriental. Seus ensinamentos transformaram para sempre o meu modo de ver e vivenciar o mundo.


Quem sou eu hoje...

Hoje eu sou três Reginas: a Regina brasileira, que adora caminhar pela manhã na praia de Ipanema; a Regina francesa, que é apaixonada por queijos; e a Regina chinesa, que come todo dia de hashi! Mas é claro que eu não posso ser diariamente essas três pessoas. Elas estão todas aqui, mas cada uma tem o seu momento. Morar fora significa absorver diferentes culturas, que nem sempre convivem bem entre si. Eu aprendi a me apegar ao que existe de melhor em cada uma delas para viver um presente multicultural! Minhas idas e vindas pelo mundo foram uma consequência do trabalho do meu marido, e neste sentido eu tive que aprender a conviver com a frustração de abandonar a minha carreira profissional. Não foi, e até hoje não é fácil, mas a vida é movida por escolhas. Eu dificilmente teria descoberto a riqueza da cultua oriental e publicado um livro sobre a minha experiência chinesa se eu tivesse seguido um outro caminho de vida. Hoje eu sou uma escritora, algo que eu nunca havia imaginado ser!


Para onde eu vou..

O que eu mais quero é em breve estar mais próxima da minha família. Já faz quase 20 anos que moro longe e com o passar dos anos, apesar de nos acostumarmos com a distância, a saudade aumenta.  As certezas são sempre poucas na vida, mas uma coisa eu sei: da China eu vou para onde minhas filhas estiverem! Seja pro Brasil ou pra qualquer outro canto do mundo!


Em Sampa eu...

Me sinto em casa. Minha alma é carioca, mas meu coração é um pouquinho paulistano. Sempre tive família e amigos na cidade, então ir para São Paulo me aproxima de pessoas queridas, de encontros cheios de alegria. Eu já tive uma história em Sampa e voltaria facilmente a morar nesta cidade. O que eu mais gosto aqui é que temos constantemente a impressão de que em São Paulo tudo é possível, essa é realmente a terra das oportunidades! Isso sem falar da gastronomia... que merece um capítulo à parte!


(Infelizmente o livro da Regina "Destino China – Um guia do estrangeiro na China: sentimentos, vivências e impressões", está atualmente esgotado)


Entrevista realizada em março de 2017 por Skype, nós em São Paulo, a Regina em Xangai

Patrice Haddad

Patrice Haddad

Patrice é um francês, comediante e professor de teatro, que desde 2015 mora em São Paulo, onde criou a trupe de teatro “Les François” e o curso de teatro “Le cours François”.

Ele nos fez descobrir o “ban bourguignon”, um canto popular da região da Borgonha, na França, que é pura diversão! Dá um google!


De onde eu vim...

Em Dijon, na Borgonha, estão minhas raízes. De lá guardo meu gosto pela cuisine française, pela mostarda picante e pelos bons vinhos. Já o teatro e a comédia são minhas grandes paixões. Foi no teatro que descobri minha vocação para ensinar e divertir as pessoas. A Marinha Nacional Francesa foi minha casa durante 10 anos, e para lá levei o teatro. Com ele, pude apoiar meus colegas nos momentos difíceis, meu lema era: “Divertir para melhor servir".


Quem sou eu hoje...

Tive maior contato com o Brasil em 2004 quando eu conheci a capoeira. E desde então, eu nunca mais a abandonei. Sua brincadeira e sua arte de viver são hoje parte fundamental da minha essência como pessoa e artista. E por isso, ter a oportunidade de morar no Brasil foi muito significativo para mim. Em 2015 eu e minha esposa chegamos em São Paulo e descobrimos como essa cidade é inspiradora de múltiplas maneiras: ela transpira arte, criatividade e empreendedorismo por todos os lados.  Aqui, eu aprendi a ser mais corajoso e dinâmico nas escolhas da vida. Criei a trupe de teatro “Les François”, que conta com incríveis comediantes franceses, brasileiros e africanos, todos voluntários. E me lancei como professor de teatro: criei a escola “Le Cours François”, onde dou aula em francês de improvisação, teatro e Stand-Up Comedy. As belezas e tristezas do Brasil também me trouxeram muita inspiração para desenhar, e cada dia que passa são mais e mais caricaturas! Mas, sem dúvidas, hoje, o que mais me orgulho de ser, é pai de um pequeno franco-brasileiro.


Para onde eu vou...

Como marinheiro, minha missão era servir à França. Agora, como comediante, minha missão é apoiar a francofonia. O contato com os brasileiros me fez gostar ainda mais da cultura francesa. Acho que muitos franceses não tem a paixão que o brasileiro tem pela França! Me sinto honrado de poder mostrar um pouco da cultura do meu país através do teatro e do desenho, é o que eu pretendo continuar a fazer por muitos anos. E, se tudo der certo, em breve a trupe “Les François” irá apresentar seu primeiro espetáculo!


 Em Sampa eu...

Descobri a expressão “de repente”, e minha vida nunca mais foi a mesma! 

Me divirto passeando por suas praças: na Praça João Francisco Lisboa, na Vila Madalena, dou muitas gargalhadas no balanço depois de tomar algumas caipirinhas com os amigos; na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, me encanto com o Espaço Cultural Alberico Rodrigues; e na Praça Roosevelt, na Consolação, assisto a incríveis peças de teatro.


Entrevista realizada em janeiro 2017 no café KOF


Vai lá conhecer o Cours François:

Escola de teatro Cours François

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E-mail: plarcheveque@hotmail.com

Telefone: (11) 98429 0928